Fímbria de melancolia, memória incerta da dor, ouço-a no gravador, no fado que não se ouvia quando ouvia o seu clamor.
Porque era já no passado o presente dessa hora e que me ressoa agora a um outro mais alongado.
Assim a dor que se sente no outro obscuro de nós nunca fala a nossa voz mas de quem de nós ausente, só a nós próprios consente quando não estamos nós mas mais sós do que ao estar sós.
Aparelhei o barco da ilusão E reforcei a fé de marinheiro. Era longe o meu sonho, e traiçoeiro O mar... (Só nos é concedida Esta vida Que temos; E é nela que é preciso Procurar O velho paraíso Que perdemos).
Prestes, larguei a vela E disse adeus ao cais, à paz tolhida. Desmedida, A revolta imensidão Transforma dia a dia a embarcação Numa errante e alada sepultura... Mas corto as ondas sem desanimar. Em qualquer aventura, O que importa é partir, não é chegar.
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Fímbria de Melancolia
Fímbria de melancolia,
memória incerta da dor,
ouço-a no gravador,
no fado que não se ouvia
quando ouvia o seu clamor.
Porque era já no passado
o presente dessa hora
e que me ressoa agora
a um outro mais alongado.
Assim a dor que se sente
no outro obscuro de nós
nunca fala a nossa voz
mas de quem de nós ausente,
só a nós próprios consente
quando não estamos nós
mas mais sós do que ao estar sós.
Onde então estamos nós?
Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'
Viagem
Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
Miguel Torga, Viagem
No direito de ser,
grito e semeio a minha dor...
Amanhã já nada resta
do último grito que é hoje
Amanhã já é tão tarde...
Imaginei palavras para o silêncio
Inventei abraços impossíveis
O meu sorriso fechou-se para balanço
Os meus lábios já não são bebíveis
Cheguei e bati bem fundo, MAS...
Depois escrevi: REAGE!
Como um náufrago escreveria TÁBUA...
E parti inteira
Rasgada em mil pedaços...
"d'Eu"
Beijo
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