terça-feira, junho 13, 2006

Desejo

Quero sentir o teu cheiro, lamber o teu corpo, percorrer cada recanto do teu ser com os meus olhos, ser o teu descobridor, ser o teu inventor, o teu primeiro leitor, recontar-te àqueles que jamais terão oportunidade de passar os dedos pelo manuscrito sagrado que é o teu corpo. O teu hálito húmido é inebriante, o teu sorriso embriaga-me, os teus gestos convidam-me os pensamentos para realidades indignas de serem relatadas. Ouço-te agora, nítida, clara, límpida, a Jacinta canta Bessie Smith para nós, não a ouço, olho-te e absorvo com avidez o teu gesticular, falas qualquer coisa irrelevante, não te ouço, contemplo-te e penso como será ter-te nos meus braços. Olhas para o teu lado direito, o teu perfil faraónico revela-se na sua plenitude para mim, os traços são finos ricamente preenchidos por cores fortes, Matisse? Picasso talvez, ou porque não José de Guimarães. Tu falas, ao mesmo tempo que expeles a fumaça cinzenta do cigarro, não te ouço, contemplo-te apenas, afinal não posso fazer tudo ao mesmo tempo. Quero levar-te para minha casa, apresentar-te ao meu cão e quem sabe ao meu gato. Observo cada movimento dos teus cabelos que o vento teima em desalinhar, são lindos e cheiram a noites de Verão. Os teus dedos delgadinhos seguram altivamente o cigarro que com gestos estudadamente descontraídos é levado à tua boca vermelha como vermelho é o meu sangue, que neste momento circula no meu corpo descontrolado desejoso de se fundir com o teu, nem que seja por escassos segundos de um prazer que se quer intensamente partilhado. Volto a ouvir a tua voz melodiosa, orquestrada pelo vai e vem do cigarro, não te ouço, perco-me nos meus pensamentos pecaminosos. Quero sentir o teu corpo inerte na minha cama, quero sentir que me pertences, quero fazer de ti continuação do meu ser, passar-te algumas das coisas, dos valores, que em mim já não têm espaço. Quero respirar pelo teu nariz, que tu penses pelo meu cérebro e que as nossas línguas se fundam numa só como sinal de uma comunhão física e intelectual. Volto a ouvir-te lá longe mas apenas por fugidios instantes, pois tenho os sentidos algemados à tua imagem e nela não cabe o som, apenas o do Jorge Palma que nos acompanha com Frágil e é assim que me sinto agora, enquanto te vejo partir na companhia daqueles com quem te vi chegar. Aqui, nesta esplanada, Só e Frágil fico à espera de outro ser que me desperte desejo, ele virá, até lá bebo a minha cerveja e deixo-me envolver pelos viveres quotidianos da cidade.

Hugo Aleixo